terça-feira, 13 de janeiro de 2009
outras encarnações
Sem romantismos: na minha segunda prática de yoga, aqui na Bahia, descobri o mistério das vidas passadas. Fui um caranguejo que comia camarão, dormia na praia e mordia as pessoas na areia. Trancoso rocks, especialmente com uma cerveja no final da tarde.
terça-feira, 23 de dezembro de 2008
On God and music
Então é assim: Deus pode existir. Se o Kraftwerk abrir o show do Radiohead, a prova cabal terá sido produzida. A melhor banda do mundo com a segunda melhor banda do mundo (pra mim é claro - qual será pra você?). Jesus, apague a luz.
domingo, 21 de dezembro de 2008
A long and winding road
Minha vida é feita de esqueletos que sazonalmente saem dos seus armários e dão uma volta pelo apartamento. Pra evitar assombrações inoportunas e garantir o equilíbrio do incontrolável, o mais comum é eu mesma abrir a porta do baú, dar uma olhadinha pra ver como estão e eventualmente uma espanada pra garantir o brilho e a atualidade de todos, e depois de cumprida a missão trancá-los todos, bem fechadinhos, de novo. É difícil eu mandar alguém pra fora de casa, porque a verdade, mesmo, é que eu lamentavelmente alimento uma espécie de estima pelos meus fantasmas - o namorado do primeiro grau, a saudade de Nova York, o beijo que eu não tive coragem de dar no menino que hoje vive nas Filipinas.
Pois neste fim de ano meus mortos-vivos resolveram sair do armário todos at once. E assim, de uma hora pra outra, minha caixa de correio ficou abarrotada com três enormes convites de casamento de amigos com quem não falo há séculos. No celular, fantasmagóricas mensagens de voz: aniversário de quatro anos do bebê da amiga querida; nascimento e batizado do bebê da outra; ex-amor-da-vida argumentando "sinto sua falta", "não me julgue" e desejando boas festas. Presentes, os mais lindos e inesperados, que chegaram e permaneceram em cima da mesa, com cartões, fotos e outras fofuras, e minha absoluta incapacidade, neste ano, de retribuir com qualquer palavra ou gesto análogo.
Eu me preparo para a segunda-feira. Checo os e-mails, respondo alguns, e sem mais intenções reparo numa foto que encontrei na semana passada. De casaco preto e cabelo curto, rindo, na primeira vez em que vi neve. Eu morava em Nova York, e o inverno começava. A foto é linda, eu era mais gordinha e mais nova. Não foi há tanto tempo, mas foi há tempo suficiente. Respiro fundo e resolvo dormir. It's a long and winding road.
Pois neste fim de ano meus mortos-vivos resolveram sair do armário todos at once. E assim, de uma hora pra outra, minha caixa de correio ficou abarrotada com três enormes convites de casamento de amigos com quem não falo há séculos. No celular, fantasmagóricas mensagens de voz: aniversário de quatro anos do bebê da amiga querida; nascimento e batizado do bebê da outra; ex-amor-da-vida argumentando "sinto sua falta", "não me julgue" e desejando boas festas. Presentes, os mais lindos e inesperados, que chegaram e permaneceram em cima da mesa, com cartões, fotos e outras fofuras, e minha absoluta incapacidade, neste ano, de retribuir com qualquer palavra ou gesto análogo.
Eu me preparo para a segunda-feira. Checo os e-mails, respondo alguns, e sem mais intenções reparo numa foto que encontrei na semana passada. De casaco preto e cabelo curto, rindo, na primeira vez em que vi neve. Eu morava em Nova York, e o inverno começava. A foto é linda, eu era mais gordinha e mais nova. Não foi há tanto tempo, mas foi há tempo suficiente. Respiro fundo e resolvo dormir. It's a long and winding road.
domingo, 2 de novembro de 2008
segunda-feira, 22 de setembro de 2008
Pequenas humanidades
O fato é: fiquei cansada dos grandes temas da humanidade.
Comprei o Le monde diplomatique Brasil hoje de manhã e me deu nos nervos. Não é que concorde ou discorde dos artigos; é outra coisa. É uma indisposição, ou talvez pura e simplesmente uma falta de de paciência para refletir sobre o papel do indivíduo e a condição de vítima nas ações humanitárias internacionais, sobre os cenários futuros e possíveis desdobramentos da crise americana, sobre o resultado da eleição nos Estados Unidos. E o problema vai além da geopolítica e da economia mundiais. De uma hora para a outra, passou a valer para as grandes reflexões sobre relacionamentos afetivos, sobre a realização de sonhos profissionais, sobre a solidariedade e o amor ilimitados entre os amigos.
Na minha última sessão de análise, cheguei à conclusão: tornei-me uma megera. Sem pudores para dizer não, sem minhas risadas altas e bestas - inclusive sem senso de humor -, sem minhas típicas falas sobre a esperança na humanidade. Agora fiquei econômica com as palavras, e não fico na sala depois de acabar a reunião, discutindo possíveis ações cooperativas - está encerrado, estas são as tarefas de cada um, ponto final. Até emagrecer eu emagreci.
Achei que seria o meu fim: depois de 3 anos de disco arranhado tocando frustrações amorosas, um ano e meio de sessões intensivas de psicanálise, e ouvido ultra-cansado dos meus amigos mais próximos, pensei, virei exatamente o avesso de mim mesma. Sou azeda, brava e pouco poética. Deixo de ser fraca para ser forte, segura e incisiva.
O que me salvou foi descer pra levar o Tufik para passear e no início do passeio dividir minha mixirica com o porteiro. Ficamos conversando, eu e ele - as modificações na quadra, a biblioteca popular, as vagas na garagem, um menino que foi sequestrado nas redondezas ontem à noite. Ufa. No fundo, no fundo, a compaixão pelo outro beneficia sobretudo a pessoa compassionada. Volto a me sentir uma pessoa depois do dia cão em que me tornei supra-humana. Salve a dúvida, o sonho, a incerteza, a coragem de amar e a coragem de sofrer; os passeios noturnos com o cachorro e sobretudo, neste momento, o senhor Egídio, porteiro das mais altas virtudes. Hoje sou fã das pequenas humanidades.
Comprei o Le monde diplomatique Brasil hoje de manhã e me deu nos nervos. Não é que concorde ou discorde dos artigos; é outra coisa. É uma indisposição, ou talvez pura e simplesmente uma falta de de paciência para refletir sobre o papel do indivíduo e a condição de vítima nas ações humanitárias internacionais, sobre os cenários futuros e possíveis desdobramentos da crise americana, sobre o resultado da eleição nos Estados Unidos. E o problema vai além da geopolítica e da economia mundiais. De uma hora para a outra, passou a valer para as grandes reflexões sobre relacionamentos afetivos, sobre a realização de sonhos profissionais, sobre a solidariedade e o amor ilimitados entre os amigos.
Na minha última sessão de análise, cheguei à conclusão: tornei-me uma megera. Sem pudores para dizer não, sem minhas risadas altas e bestas - inclusive sem senso de humor -, sem minhas típicas falas sobre a esperança na humanidade. Agora fiquei econômica com as palavras, e não fico na sala depois de acabar a reunião, discutindo possíveis ações cooperativas - está encerrado, estas são as tarefas de cada um, ponto final. Até emagrecer eu emagreci.
Achei que seria o meu fim: depois de 3 anos de disco arranhado tocando frustrações amorosas, um ano e meio de sessões intensivas de psicanálise, e ouvido ultra-cansado dos meus amigos mais próximos, pensei, virei exatamente o avesso de mim mesma. Sou azeda, brava e pouco poética. Deixo de ser fraca para ser forte, segura e incisiva.
O que me salvou foi descer pra levar o Tufik para passear e no início do passeio dividir minha mixirica com o porteiro. Ficamos conversando, eu e ele - as modificações na quadra, a biblioteca popular, as vagas na garagem, um menino que foi sequestrado nas redondezas ontem à noite. Ufa. No fundo, no fundo, a compaixão pelo outro beneficia sobretudo a pessoa compassionada. Volto a me sentir uma pessoa depois do dia cão em que me tornei supra-humana. Salve a dúvida, o sonho, a incerteza, a coragem de amar e a coragem de sofrer; os passeios noturnos com o cachorro e sobretudo, neste momento, o senhor Egídio, porteiro das mais altas virtudes. Hoje sou fã das pequenas humanidades.
terça-feira, 9 de setembro de 2008
And then
Então existem esses dias em que a gente repara numa coisa qualquer que nos traz à percepção o óbvio de termos nos tornado uma pessoa absolutamente diferente.
Pra mim nunca é transcendental. Nunca é como se, de uma hora para outra, estivesse abandonando meu velho eu para me tornar uma nova mulher, revigorada, mais forte, mais cética, mais sei-lá-o-quê. Não. Pra mim é como um reflexo retardado, mesmo, a surpresa que existe no reconhecimento de algo que já foi consumado. Ou talvez o certo fosse dizer que o momento da consumação seria mesmo este do reconhecimento, com o processo todo da mudança já passado.
Assim é pra mim, mas acho que muda de acordo com cada pessoa. É que tenho mesmo uma relação de retardo com o tempo; preciso terminar cada coisa para sentir como foi na época em que aconteceu. Acho que sou viciada em classificar para sentir. (Se o Wagner lesse isso, diria que tenho dificuldade em ser contemporânea de mim mesma).
Como certo, ando mais calada. As pessoas perguntam se é tristeza ou alguma coisa congênere. Não saberia responder ao certo. Simplesmente ando sem saber direito o que dizer. Mas continuo gostando de observar as coisas, de ouvir os outros conversando, de ficar olhando as pessoas no aeroporto enquanto espero o próximo vôo.
Pode ser o fenômeno de chegar perto dos 30.
Pra mim nunca é transcendental. Nunca é como se, de uma hora para outra, estivesse abandonando meu velho eu para me tornar uma nova mulher, revigorada, mais forte, mais cética, mais sei-lá-o-quê. Não. Pra mim é como um reflexo retardado, mesmo, a surpresa que existe no reconhecimento de algo que já foi consumado. Ou talvez o certo fosse dizer que o momento da consumação seria mesmo este do reconhecimento, com o processo todo da mudança já passado.
Assim é pra mim, mas acho que muda de acordo com cada pessoa. É que tenho mesmo uma relação de retardo com o tempo; preciso terminar cada coisa para sentir como foi na época em que aconteceu. Acho que sou viciada em classificar para sentir. (Se o Wagner lesse isso, diria que tenho dificuldade em ser contemporânea de mim mesma).
Como certo, ando mais calada. As pessoas perguntam se é tristeza ou alguma coisa congênere. Não saberia responder ao certo. Simplesmente ando sem saber direito o que dizer. Mas continuo gostando de observar as coisas, de ouvir os outros conversando, de ficar olhando as pessoas no aeroporto enquanto espero o próximo vôo.
Pode ser o fenômeno de chegar perto dos 30.
quinta-feira, 12 de junho de 2008
Dias dos namorados, versão 2008
Passa da meia-noite, portanto vivemos todos, no Brasil, o inevitável dia dos namorados.
Ano passado, para comemorar, fui tomar cerveja com meus amigos solteiros ou namorantes-mal amados. O resultado inesperado foi me tornar uma semi-namorante mal-amada de um dos namorantes-mal amados convidados. Bad, bad. Resolvi mudar de programa.
Assim, em 2008, à beira do fim da dissertação, solteira após um quase-casamento discursivo, reservei-me o direito de tomar uma caixa de cervejas sozinha, pensando nos grandes amores da minha vida, sendo besta e nos intervalos escrevendo sobre genocídio.
Descubro que o maior amor da minha vida é o Thom Yorke, meu Tufik em forma de gente. Eu poderia ariar panelas com o pior bombril do mundo só para estar com ele. Lindo, especialmente quando decide ficar loirinho e cantar Creep. Lots of love. Número 1, 2 e 3 absoluto; quaisquer outros estão a quilômetros de distância.
Segundo lugar, plenamente, o sexy boy James Murphy, o one man army do LCD Soundsystem. Sempre achei meninos barrigudos o máximo. E ele deve ser engraçado, querido, cool e tomar cerveja gelada (ao contrário do Thom Yorke, que deve ser um chato). E tem a melhor música "4" de todos os tempos: someone great é linda como ele; sensível, como ele deve ser; romântica e pós-moderna, sem amor eterno, mas cheia de desejo infinito. O sotaque dele é a encarnação absoluta de todos os nova-iorquinos, imigrantes ou não, que já passaram por Nova York. E eu sinto muito falta de lá. Talvez seja só isso.
E por fim, quem diria, o maravilhoso Ian Thorpe, nadador esquisito de pés número 50. Fala bobagens, muitas, mas nada borboleta lindamente com sua roupa escamada testada e retestada muitas vezes pela Adidas. Eu me apaixono toda vez que vejo a saída dele, com a câmera embaixo da água. Nunca tive predileção pela Austrália, mas agora tenho vontade de visitar.
De volta à Terra, a dissertação vai que vai, nos últimos momentos. Decidi que vou resgatar a velha passagem aérea da TAM, tantas vezes cancelada ao longo do ano, e passar férias no Rio de Janeiro, em julho. Daqui a um mês. Em plena liberdade, com meus queridos e com minha cidade de estimação, meu chaveiro de alegrias - Andrezinho lindo, Márcia e Felipe, acampamento em quitinete para o show da Bjork, boteco barato, sujeira e escrotices variadas. In love with none.
Feliz dia dos namorados.
Ano passado, para comemorar, fui tomar cerveja com meus amigos solteiros ou namorantes-mal amados. O resultado inesperado foi me tornar uma semi-namorante mal-amada de um dos namorantes-mal amados convidados. Bad, bad. Resolvi mudar de programa.
Assim, em 2008, à beira do fim da dissertação, solteira após um quase-casamento discursivo, reservei-me o direito de tomar uma caixa de cervejas sozinha, pensando nos grandes amores da minha vida, sendo besta e nos intervalos escrevendo sobre genocídio.
Descubro que o maior amor da minha vida é o Thom Yorke, meu Tufik em forma de gente. Eu poderia ariar panelas com o pior bombril do mundo só para estar com ele. Lindo, especialmente quando decide ficar loirinho e cantar Creep. Lots of love. Número 1, 2 e 3 absoluto; quaisquer outros estão a quilômetros de distância.
Segundo lugar, plenamente, o sexy boy James Murphy, o one man army do LCD Soundsystem. Sempre achei meninos barrigudos o máximo. E ele deve ser engraçado, querido, cool e tomar cerveja gelada (ao contrário do Thom Yorke, que deve ser um chato). E tem a melhor música "4" de todos os tempos: someone great é linda como ele; sensível, como ele deve ser; romântica e pós-moderna, sem amor eterno, mas cheia de desejo infinito. O sotaque dele é a encarnação absoluta de todos os nova-iorquinos, imigrantes ou não, que já passaram por Nova York. E eu sinto muito falta de lá. Talvez seja só isso.
E por fim, quem diria, o maravilhoso Ian Thorpe, nadador esquisito de pés número 50. Fala bobagens, muitas, mas nada borboleta lindamente com sua roupa escamada testada e retestada muitas vezes pela Adidas. Eu me apaixono toda vez que vejo a saída dele, com a câmera embaixo da água. Nunca tive predileção pela Austrália, mas agora tenho vontade de visitar.
De volta à Terra, a dissertação vai que vai, nos últimos momentos. Decidi que vou resgatar a velha passagem aérea da TAM, tantas vezes cancelada ao longo do ano, e passar férias no Rio de Janeiro, em julho. Daqui a um mês. Em plena liberdade, com meus queridos e com minha cidade de estimação, meu chaveiro de alegrias - Andrezinho lindo, Márcia e Felipe, acampamento em quitinete para o show da Bjork, boteco barato, sujeira e escrotices variadas. In love with none.
Feliz dia dos namorados.
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