Então antes de ontem eu vi essa loja de aquários enquanto sentava sozinha pra pedir um temaki.
E tinha um aquário marinho enorme que dava pro lado de fora, e que eu conseguia ver enquanto comia um sunomono e tomava uma ordinária coca-light.
Eram oito horas da noite, eu terminei o temaki e entrei pra ver os peixes. Tinha muita criança, também, e a loja era linda, pequena, e o vendedor de trinta e cinco anos me mostrou que num dos aquários, se você abaixasse bem a cabeça, dava pra ver as bolhinhas saindo do tapete de plantas, e que isso era ver a fotossíntese.
Vi um peixe amarelo e roxo enorme e virtuoso, e vários aquários pequeninos e lindos com um peixe beta sozinho em cada, e aí eu perguntei pro mocinho se não era terrível que esses peixes tivessem um aquário inteiro só pra eles, vivessem solitos.
Ele disse que sim, que eles se sentiam poderosos, mas que no fundo odiavam e acabavam se tornando animais intragáveis, arrogantes e deprimidos (tudo ao mesmo tempo). E mostrou o que seria ideal: misturar os peixes beta com outros peixes menos violentos num mesmo aquário pra que eles ficassem domesticados. Perguntou se eu queria comprar um assim.
Lógico que sim, esse é o meu aquário - eu só pensei. Há realmente muito o que aprender com os peixes. Às vezes lojas de aquários contêm o sentido da vida. Especialmente pra mim, especialmente às vésperas dos meus trinta anos. Connecting the dots; tô pra ver o que mais essa crise vai me dar, adorando.
domingo, 14 de março de 2010
30 - sobre ação e desejo
Acontece, de vez em quando, um momento de epifania PLIM como se, aí sim, fizesse sentido; como se, aí sim, houvesse o encontro com uma resposta que é na verdade, e quase sempre, uma bobagem simples e óbvia qualquer que só você, parece que só você ainda não tinha encontrado no mundo. Foi só depois de 3 anos de análise que eu entendi que a única maneira de ser forte é fazendo assim: agindo conforme o desejo. E que o desejo é o presente - é o que a gente é todo dia, sempre. Não agir conforme o desejo pode gerar em algumas situações uma dor menos pungente, mas que é eterna.
Porque eu sempre tive esse medo terrível de machucar qualquer pessoa e também, muito, de ser machucada, e por isso eu nunca consegui muito segurar os nenéns, já que eles são minúsculos e frágeis e podem chorar a qualquer momento; e sempre foi aquela tragédia pra paquerar, então sempre esperei que por um milagre aquele menino x pudesse resolver vir falar comigo e.; e nunca realmente dei uma festa de aniversário, porque e se ninguém aparecer, meu Deus... Do lado de cá, dentro de mim, um vasto universo, emoções imperfeitas, então eu fiz tudo tudo tudo que eu não fiz do lado de lá - viajei pra longe, muito longe muitas vezes, sozinha e independente, trabalho na coisa mais bonita que existe no mundo, estudei muito muito e passei num super mestrado e tal, e então é comum as pessoas me procurarem pra pegar emprestado aquele livro de literatura que só eu sei indicar porque tem a ver com elas, e dizerem que eu sou forte forte forte, ainda que doce. A cápsula da mulher maravilhas, independente e nem aí, essa eu construí, e ninguém nunca soube neste mundo que eu, na verdade, sou tímida de quase morrer de vergonha de tudo. Pra dentro o meu desejo é ilimitado e possível. O que não consigo, mesmo, é cruzar a muralha da China do outro, e mesmo que eu morra de vontade de construir vínculos, tenho muito medo de não dar certo, de eu abandonar ou ser abandonada. Então eu vou embora antes.
Até que PLIM, na última sessão de análise, e foi tão bonito que eu nem precisei derramar nenhuma lágrima, e saí pelo mundo mandando mensagem "quero te ver", discutindo relações mesmo que elas tivessem 10 dias, porque isso era importante pra mim mesmo que fosse chato pro outro, e que embora fosse chato, eu precisava realmente dividir pra entender, e por enquanto é isso, e não me importa tanto a resposta quanto me importa a minha ação. E me senti realmente forte.
A crise dos 30 é a coisa mais tenebrosa pela qual eu já passei, certamente. É equacionar o fato de estar fora do tempo, de não ser o que eu era pra ser e não saber o que é que vou me tornar, de ter amigos em todas as partes do mundo mas não perto de mim, e, cada vez mais, de me surpreender ouvindo mais jazz que rockn'roll e um pouco achar isso esquisito; de pais ficando velhinhos e longe e aí vai. Mas pelo menos agora está começando a fazer muito sentido, e estou começando a adorar. Connecting the dots. Os 30 vão ser demais.
Porque eu sempre tive esse medo terrível de machucar qualquer pessoa e também, muito, de ser machucada, e por isso eu nunca consegui muito segurar os nenéns, já que eles são minúsculos e frágeis e podem chorar a qualquer momento; e sempre foi aquela tragédia pra paquerar, então sempre esperei que por um milagre aquele menino x pudesse resolver vir falar comigo e.; e nunca realmente dei uma festa de aniversário, porque e se ninguém aparecer, meu Deus... Do lado de cá, dentro de mim, um vasto universo, emoções imperfeitas, então eu fiz tudo tudo tudo que eu não fiz do lado de lá - viajei pra longe, muito longe muitas vezes, sozinha e independente, trabalho na coisa mais bonita que existe no mundo, estudei muito muito e passei num super mestrado e tal, e então é comum as pessoas me procurarem pra pegar emprestado aquele livro de literatura que só eu sei indicar porque tem a ver com elas, e dizerem que eu sou forte forte forte, ainda que doce. A cápsula da mulher maravilhas, independente e nem aí, essa eu construí, e ninguém nunca soube neste mundo que eu, na verdade, sou tímida de quase morrer de vergonha de tudo. Pra dentro o meu desejo é ilimitado e possível. O que não consigo, mesmo, é cruzar a muralha da China do outro, e mesmo que eu morra de vontade de construir vínculos, tenho muito medo de não dar certo, de eu abandonar ou ser abandonada. Então eu vou embora antes.
Até que PLIM, na última sessão de análise, e foi tão bonito que eu nem precisei derramar nenhuma lágrima, e saí pelo mundo mandando mensagem "quero te ver", discutindo relações mesmo que elas tivessem 10 dias, porque isso era importante pra mim mesmo que fosse chato pro outro, e que embora fosse chato, eu precisava realmente dividir pra entender, e por enquanto é isso, e não me importa tanto a resposta quanto me importa a minha ação. E me senti realmente forte.
A crise dos 30 é a coisa mais tenebrosa pela qual eu já passei, certamente. É equacionar o fato de estar fora do tempo, de não ser o que eu era pra ser e não saber o que é que vou me tornar, de ter amigos em todas as partes do mundo mas não perto de mim, e, cada vez mais, de me surpreender ouvindo mais jazz que rockn'roll e um pouco achar isso esquisito; de pais ficando velhinhos e longe e aí vai. Mas pelo menos agora está começando a fazer muito sentido, e estou começando a adorar. Connecting the dots. Os 30 vão ser demais.
quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010
sobre hipotermia
Acordar cinco e meia da manhã. Pão, tirar a blusinha, onde é que eu tô, clássica note to self (odeio acordar cedo), meia, tênis, água no rosto, fuck o top tá do lado errado, chave na mão, carro, Parque da Cidade, Beirut tocando me irrita, não dá pra ouvir música a essa hora, correr. Muitas pessoas na equipe. Todo mundo é magrinho, putz, por que eu fui fumar e tomar vinho ontem de noite? . Duatlo way of life. Vai vai vai, corre aí. Não aguentar, correr mais, acabou aquecimento, hora do treino forte. Última da fila. Correr correr correr, muito, muito frio, que muito frio será esse, toda arrepiada, quanto tempo será que já foi?, não acredito que ainda tem dez minutos, go go go, muito frio. Uma hora de treino, passar frio num calor de quarenta graus, 60 minutos no pólo norte. Febre, sim, de vez em quando, mas só de vez em quando, eu gostava de ter febre, quando era pequena e também depois de ficar adulta (algumas coisas nunca mudam). Ficar hipotérmica também é assim, uma surpresa, algo de delírio, stoned yet sober, uma viagem much further way, muito além de voltas no parque, welcome to wonderland, babe. Feels just like home.
segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010
30 - sobre o ordinário
odeio e sempre odiarei o ordinário, mas não sou feliz por isso.
minha vida sempre foi um esforço louco por amar o dia-a-dia, o comum, o detalhe óbvio que ninguém repara, o som da chuva, o domingo, os vínculos que a gente cria, recria e reinventa o tempo todo. um esforço cão para dar vida ao lugar-comum.
nunca consegui. não tenho esse dom, definitivamente. só tenho capacidade de amar o pequeno quando ele é extraordinário, muito muito extraordinário pra mim. odeio a remota ideia de que eu vou viver na mesma cidade pelo resto da vida. pessoas lindas, absloutamente lindas são só aquelas que eu amo, e o mundo se divide entre elas e um monte de gente sem graça de quem eu esqueço o nome. eu gosto de olhar a minha foto preferida dez mil vezes, e cada vez eu vou tratá-la com uma cor a mais no photoshop, e isso vai demorar, sim, uma hora e quarenta, e ninguém neste planeta vai suportar ficar perto de mim; e pra sempre sempre sempre vou ver o ballad of the sexual dependence da nan goldin com lágrima no olho, e ouvir she came through the bathroom window ou berlin e ficar quietinha 30 segundos depois porque é tão lindo que. não adianta, porque eu falo no superlativo, faço esportes até o limite das minhas forças e depois me machucho tanto que não existe fisioterapia que me recupere, e indefectivelmente como macarrão ao sugo até explodir. sou uma tragédia ambulante, um treco movido pela compulsão do extraordinário. só amo as coisas quando elas são tão especiais que me fazem sair do conhecido mil vezes.
mais do que nunca, sinto que o mundo requer que eu passe a amar o ordinário agora, quando estou estou chegando perto dos 30. todo mundo com filho, todo mundo querendo comprar terreno, a maioria com um carro melhor do que antes, as famílias dos meus amigos vão crescendo, e cada vez mais vem o "adivinha quem tá grávida, Mari?". acho bonitinho. entendo. não faz nenhum sentido pra mim.
às vezes eu me sinto como se fosse uma alienígena. de vez em quando eu sofro, e esses tempos andava meio triste, meio quieta sem saber por quê, sem nem saber se era tristeza, mesmo, ou se um nem saber o que sentir, um lugar nenhum. já acordei de noite duas vezes, assustada, com vontade de chorar, e chorei porque era bom, bom chorar. sem nenhuma razão.
fiquei com vontade de amar o ordinário. não consigo. não amar o ordinário faz sofrer. depois de 3 anos de análise realmente descobri que fico mais feliz fazendo parte de outro planeta, que não ter que amar o inamável é a melhor forma de respirar. and I kinda like it.
saí e comprei uma bicicleta azul de corrida.
minha vida sempre foi um esforço louco por amar o dia-a-dia, o comum, o detalhe óbvio que ninguém repara, o som da chuva, o domingo, os vínculos que a gente cria, recria e reinventa o tempo todo. um esforço cão para dar vida ao lugar-comum.
nunca consegui. não tenho esse dom, definitivamente. só tenho capacidade de amar o pequeno quando ele é extraordinário, muito muito extraordinário pra mim. odeio a remota ideia de que eu vou viver na mesma cidade pelo resto da vida. pessoas lindas, absloutamente lindas são só aquelas que eu amo, e o mundo se divide entre elas e um monte de gente sem graça de quem eu esqueço o nome. eu gosto de olhar a minha foto preferida dez mil vezes, e cada vez eu vou tratá-la com uma cor a mais no photoshop, e isso vai demorar, sim, uma hora e quarenta, e ninguém neste planeta vai suportar ficar perto de mim; e pra sempre sempre sempre vou ver o ballad of the sexual dependence da nan goldin com lágrima no olho, e ouvir she came through the bathroom window ou berlin e ficar quietinha 30 segundos depois porque é tão lindo que. não adianta, porque eu falo no superlativo, faço esportes até o limite das minhas forças e depois me machucho tanto que não existe fisioterapia que me recupere, e indefectivelmente como macarrão ao sugo até explodir. sou uma tragédia ambulante, um treco movido pela compulsão do extraordinário. só amo as coisas quando elas são tão especiais que me fazem sair do conhecido mil vezes.
mais do que nunca, sinto que o mundo requer que eu passe a amar o ordinário agora, quando estou estou chegando perto dos 30. todo mundo com filho, todo mundo querendo comprar terreno, a maioria com um carro melhor do que antes, as famílias dos meus amigos vão crescendo, e cada vez mais vem o "adivinha quem tá grávida, Mari?". acho bonitinho. entendo. não faz nenhum sentido pra mim.
às vezes eu me sinto como se fosse uma alienígena. de vez em quando eu sofro, e esses tempos andava meio triste, meio quieta sem saber por quê, sem nem saber se era tristeza, mesmo, ou se um nem saber o que sentir, um lugar nenhum. já acordei de noite duas vezes, assustada, com vontade de chorar, e chorei porque era bom, bom chorar. sem nenhuma razão.
fiquei com vontade de amar o ordinário. não consigo. não amar o ordinário faz sofrer. depois de 3 anos de análise realmente descobri que fico mais feliz fazendo parte de outro planeta, que não ter que amar o inamável é a melhor forma de respirar. and I kinda like it.
saí e comprei uma bicicleta azul de corrida.
terça-feira, 12 de janeiro de 2010
30 - uma carta rancorosa a 2009
Pensei em você por um átimo quando fui assistir Avatar 3D, quando apagou a luz e todo mundo vestiu os óculos ridículos. Queria ter ouvido você comentar algo sobre as lagriminhas que eu deixei escorrer, uma saindo da lente azul, outra da lente vermelha, no final da luta do bem contra o mal.
Que eu amei, lógico. Eu esperava que você dissesse que no fundo eu sou bem literal e chorona, ou que no fundo eu sou bem melancólica e pouco direta. Tanto fazia.
Mas não havia Avatar 3D antes, e você não estava lá quando foi finalmente lançado no cinema. Foi só quando entrei em casa depois da sessão, quando quis ouvir pessoas falando mais, que notei que você estava lá, sim, porque 2010 começou sem palavras, num silêncio suspenso típico de você, como uma porta um segundo antes de abrir, como o dentro da geladeira, como o momento breathtaking imediatamente depois de se entrar na água gelada. Como algo que existe, but no quite, como alguém que existe, but not yet, como uma banana com laranja que acabaram de entrar no liquidificador e ainda não viraram suco.
Talvez banana e laranja não combinem; espero que só esteja faltando a proporção correta. Portanto está na hora de você sair de casa; bem-vindo, 2010, faça o favor de entrar.
Que eu amei, lógico. Eu esperava que você dissesse que no fundo eu sou bem literal e chorona, ou que no fundo eu sou bem melancólica e pouco direta. Tanto fazia.
Mas não havia Avatar 3D antes, e você não estava lá quando foi finalmente lançado no cinema. Foi só quando entrei em casa depois da sessão, quando quis ouvir pessoas falando mais, que notei que você estava lá, sim, porque 2010 começou sem palavras, num silêncio suspenso típico de você, como uma porta um segundo antes de abrir, como o dentro da geladeira, como o momento breathtaking imediatamente depois de se entrar na água gelada. Como algo que existe, but no quite, como alguém que existe, but not yet, como uma banana com laranja que acabaram de entrar no liquidificador e ainda não viraram suco.
Talvez banana e laranja não combinem; espero que só esteja faltando a proporção correta. Portanto está na hora de você sair de casa; bem-vindo, 2010, faça o favor de entrar.
domingo, 29 de novembro de 2009
sábado, 24 de outubro de 2009
30 - blondie
Pintei o cabelo de loiro, me achei lindíssima, cachinhos dourados, e dez dias depois percebi que minha sobrancelha me incomodava. Minhas roupas roxas ficam horríveis com cabelo amarelo (e as roxas são as minhas roupas preferidas), então cortei a franja para diminuir a loirice; não deu certo. Ultimamente passei a me sentir uma loira pintada, o que é uma verdade irrevogável.
Ando tensa, sempre com camiseta branca, dando dois pulos cada vez que um amigo me encontra e solta o "você está tão loira". Argh. Agora a raiz está crescendo. Preta.
Nunca me identifiquei com nenhuma atriz loira, de nenhuma nacionalidade - Scarlet Johansson, Brigitte Bardot, Bibi Anderson. Sempre invejei as ruivas e amei as morenas, tipo Winona Ryder, Natalie Portman, Juliette Binoche. Não tenho o sex appeal simbólico das loiras; sempre fui mais pra esquisita. Agora sou uma loira esquisita, perto dos 30, que passou a usar anti-rugas na semana passada e tem medo de começar um esporte novo - não dá pra começar a aprender futevôlei aos 30, meu Deus.
Atribuo todas as últimas agruras da minha vida à crise dos meus futuros 30 anos. A loirice também - fiquei em crise, resolvi virar loira, e agora minha crise está maior ainda. Portanto, daqui pra frente, só vou escrever sobre os meus 30 anos, e o projeto é falar de tudo tudo tudo até o dia em que minha crise passar.
Ando tensa, sempre com camiseta branca, dando dois pulos cada vez que um amigo me encontra e solta o "você está tão loira". Argh. Agora a raiz está crescendo. Preta.
Nunca me identifiquei com nenhuma atriz loira, de nenhuma nacionalidade - Scarlet Johansson, Brigitte Bardot, Bibi Anderson. Sempre invejei as ruivas e amei as morenas, tipo Winona Ryder, Natalie Portman, Juliette Binoche. Não tenho o sex appeal simbólico das loiras; sempre fui mais pra esquisita. Agora sou uma loira esquisita, perto dos 30, que passou a usar anti-rugas na semana passada e tem medo de começar um esporte novo - não dá pra começar a aprender futevôlei aos 30, meu Deus.
Atribuo todas as últimas agruras da minha vida à crise dos meus futuros 30 anos. A loirice também - fiquei em crise, resolvi virar loira, e agora minha crise está maior ainda. Portanto, daqui pra frente, só vou escrever sobre os meus 30 anos, e o projeto é falar de tudo tudo tudo até o dia em que minha crise passar.
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