quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010

sobre hipotermia

Acordar cinco e meia da manhã. Pão, tirar a blusinha, onde é que eu tô, clássica note to self (odeio acordar cedo), meia, tênis, água no rosto, fuck o top tá do lado errado, chave na mão, carro, Parque da Cidade, Beirut tocando me irrita, não dá pra ouvir música a essa hora, correr. Muitas pessoas na equipe. Todo mundo é magrinho, putz, por que eu fui fumar e tomar vinho ontem de noite? . Duatlo way of life. Vai vai vai, corre aí. Não aguentar, correr mais, acabou aquecimento, hora do treino forte. Última da fila. Correr correr correr, muito, muito frio, que muito frio será esse, toda arrepiada, quanto tempo será que já foi?, não acredito que ainda tem dez minutos, go go go, muito frio. Uma hora de treino, passar frio num calor de quarenta graus, 60 minutos no pólo norte. Febre, sim, de vez em quando, mas só de vez em quando, eu gostava de ter febre, quando era pequena e também depois de ficar adulta (algumas coisas nunca mudam). Ficar hipotérmica também é assim, uma surpresa, algo de delírio, stoned yet sober, uma viagem much further way, muito além de voltas no parque, welcome to wonderland, babe. Feels just like home.

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

30 - sobre o ordinário

odeio e sempre odiarei o ordinário, mas não sou feliz por isso.
minha vida sempre foi um esforço louco por amar o dia-a-dia, o comum, o detalhe óbvio que ninguém repara, o som da chuva, o domingo, os vínculos que a gente cria, recria e reinventa o tempo todo. um esforço cão para dar vida ao lugar-comum.
nunca consegui. não tenho esse dom, definitivamente. só tenho capacidade de amar o pequeno quando ele é extraordinário, muito muito extraordinário pra mim. odeio a remota ideia de que eu vou viver na mesma cidade pelo resto da vida. pessoas lindas, absloutamente lindas são só aquelas que eu amo, e o mundo se divide entre elas e um monte de gente sem graça de quem eu esqueço o nome. eu gosto de olhar a minha foto preferida dez mil vezes, e cada vez eu vou tratá-la com uma cor a mais no photoshop, e isso vai demorar, sim, uma hora e quarenta, e ninguém neste planeta vai suportar ficar perto de mim; e pra sempre sempre sempre vou ver o ballad of the sexual dependence da nan goldin com lágrima no olho, e ouvir she came through the bathroom window ou berlin e ficar quietinha 30 segundos depois porque é tão lindo que. não adianta, porque eu falo no superlativo, faço esportes até o limite das minhas forças e depois me machucho tanto que não existe fisioterapia que me recupere, e indefectivelmente como macarrão ao sugo até explodir. sou uma tragédia ambulante, um treco movido pela compulsão do extraordinário. só amo as coisas quando elas são tão especiais que me fazem sair do conhecido mil vezes.
mais do que nunca, sinto que o mundo requer que eu passe a amar o ordinário agora, quando estou estou chegando perto dos 30. todo mundo com filho, todo mundo querendo comprar terreno, a maioria com um carro melhor do que antes, as famílias dos meus amigos vão crescendo, e cada vez mais vem o "adivinha quem tá grávida, Mari?". acho bonitinho. entendo. não faz nenhum sentido pra mim.
às vezes eu me sinto como se fosse uma alienígena. de vez em quando eu sofro, e esses tempos andava meio triste, meio quieta sem saber por quê, sem nem saber se era tristeza, mesmo, ou se um nem saber o que sentir, um lugar nenhum. já acordei de noite duas vezes, assustada, com vontade de chorar, e chorei porque era bom, bom chorar. sem nenhuma razão.
fiquei com vontade de amar o ordinário. não consigo. não amar o ordinário faz sofrer. depois de 3 anos de análise realmente descobri que fico mais feliz fazendo parte de outro planeta, que não ter que amar o inamável é a melhor forma de respirar. and I kinda like it.
saí e comprei uma bicicleta azul de corrida.

terça-feira, 12 de janeiro de 2010

30 - uma carta rancorosa a 2009

Pensei em você por um átimo quando fui assistir Avatar 3D, quando apagou a luz e todo mundo vestiu os óculos ridículos. Queria ter ouvido você comentar algo sobre as lagriminhas que eu deixei escorrer, uma saindo da lente azul, outra da lente vermelha, no final da luta do bem contra o mal.
Que eu amei, lógico. Eu esperava que você dissesse que no fundo eu sou bem literal e chorona, ou que no fundo eu sou bem melancólica e pouco direta. Tanto fazia.
Mas não havia Avatar 3D antes, e você não estava lá quando foi finalmente lançado no cinema. Foi só quando entrei em casa depois da sessão, quando quis ouvir pessoas falando mais, que notei que você estava lá, sim, porque 2010 começou sem palavras, num silêncio suspenso típico de você, como uma porta um segundo antes de abrir, como o dentro da geladeira, como o momento breathtaking imediatamente depois de se entrar na água gelada. Como algo que existe, but no quite, como alguém que existe, but not yet, como uma banana com laranja que acabaram de entrar no liquidificador e ainda não viraram suco.
Talvez banana e laranja não combinem; espero que só esteja faltando a proporção correta. Portanto está na hora de você sair de casa; bem-vindo, 2010, faça o favor de entrar.

domingo, 29 de novembro de 2009

sábado, 24 de outubro de 2009

30 - blondie

Pintei o cabelo de loiro, me achei lindíssima, cachinhos dourados, e dez dias depois percebi que minha sobrancelha me incomodava. Minhas roupas roxas ficam horríveis com cabelo amarelo (e as roxas são as minhas roupas preferidas), então cortei a franja para diminuir a loirice; não deu certo. Ultimamente passei a me sentir uma loira pintada, o que é uma verdade irrevogável.
Ando tensa, sempre com camiseta branca, dando dois pulos cada vez que um amigo me encontra e solta o "você está tão loira". Argh. Agora a raiz está crescendo. Preta.
Nunca me identifiquei com nenhuma atriz loira, de nenhuma nacionalidade - Scarlet Johansson, Brigitte Bardot, Bibi Anderson. Sempre invejei as ruivas e amei as morenas, tipo Winona Ryder, Natalie Portman, Juliette Binoche. Não tenho o sex appeal simbólico das loiras; sempre fui mais pra esquisita. Agora sou uma loira esquisita, perto dos 30, que passou a usar anti-rugas na semana passada e tem medo de começar um esporte novo - não dá pra começar a aprender futevôlei aos 30, meu Deus.
Atribuo todas as últimas agruras da minha vida à crise dos meus futuros 30 anos. A loirice também - fiquei em crise, resolvi virar loira, e agora minha crise está maior ainda. Portanto, daqui pra frente, só vou escrever sobre os meus 30 anos, e o projeto é falar de tudo tudo tudo até o dia em que minha crise passar.

sábado, 3 de outubro de 2009

30

De repente vai ser trinta. Quer dizer, não esse ano, mas o negócio é que agora é como se já fosse, e estou em plena crise dos 30 no começo dos 29. Neurótica, bem meu tipinho, vivendo uma crise terrível, tenebrosa, porque ela é justamente o contrário do que eu previa.

A verdade, mesmo, é que sempre tive medo de estar sozinha aos trinta. De não ter tido uns dois filhos aos trinta. De ser uma mulher desesperada aos trinta. De não saber o que fazer aos trinta.

O problema é que eu não acho bebês bonitinhos. Quer dizer, eles são, mas cachorro filhote eu gosto mais. Então meu medo mudou: agora eu tenho medo de nunca querer ter filho, da vontade nunca vir, e de, se um dia eu quiser, ser tarde demais, e aí eu ficar velhinha, caquética, e todo mundo estar morto, e eu estar sem ninguém no mundo, completamente maluca, andando de fralda por aí.

E não consigo pensar em relacionamento. Não consigo imaginar como seria o tal homem da minha vida que contam pra gente que existe quando a gente é criança, essa espécie de coelhinho dá pascoa no cavalo branco. Não sei se ele vai existir, e se vai ser médico, arquiteto, artista plástico ou sei lá o que. Porque não me interessa. Meu último amor era sul-africano e morava no Chipre, lindo, sem compromisso cotidiano, perfeito. Ás vezes, no sábado de noite, eu entendo que eu sinto falta. Mas passa. De verdade. Nunca achei que fosse ser de verdade. Tenho medo de ser de verdade.

Na verdade, nos 30, ou pré-30, faço de novo a mesma coisa de sempre. Meu medo mora no futuro, como sempre. Meus sonhos moram no futuro, como sempre. Meu medo é do que vai ser, porque o que é, é cool, eu administro. O presente é uma distração, rehearsal, babe.

No futuro, então, vai existir um dia em que tudo vai fazer sentido. Um dia em que eu vou resolver esse problema de sempre ter quilos a mais, em que meu cabelo vai finalmente ser enorme e eu vou fazer aquela trança que é meu sonho há uns 5 anos, em que eu vou ser tão feliz que vou trocar apelidinhos bregas com meu médico-dentista-arquiteto-marido, em que todos vão entender que foto digital pb é realmente uma merda e vão reativar os papéis fibra e retomar o império da verdadeira profundidade tonal e do tri-x no mundo, em que eu vou parar de fumar sem sofrimento e sobrepeso, e em que eu terei peitos da Gisele Bunchen.

Por enquanto vou ficando por aqui. Comprando compulsivamente melissinhas coloridas, sem móveis novos e sem querer nada que não seja ser livre, fugindo dos vínculos, filhos, maridos e animais de estimação, wondering where my new home will be next year, planejando 40 dias de férias na Índia ou nos Bálcãs.

Como sempre, desde os 15, sempre por ser, sendo. Ou sou muito infantil, ou meus amigos comprando apartamento e tendo filho são loucos. Pra mim, assim: um dia vou construir uma casa, um cachorro, um namorado e dois filhos de plástico colorido. Combina mais comigo; esses são os meus trintinha.

domingo, 16 de agosto de 2009

amor é se sentir em casa

depois de vários e vários escândalos internos, nos quais o meu cérebro tentou convencer meu coração que se ele continuasse naquele drama todo ele ia acabar me matando; de decepções amorosas cultivadas cuidadosamente em formol para resguardarem seu cheiro e gostinho originais; depois de uma crise de nervos associada à morte do meu cachorro surdo, ou, em outras palavras, à constatação de que eu estava realmente sozinha nessa cidade calorenta; depois de vários casos de amor temporários variando entre 3 encontros e 2 anos; depois de frequentar todas as festas de rockn'roll da cidade e sair achando que a música é melhor do que a vida; depois de passar um ano sem ter disposição para pegar meu diploma de mestrado impresso há um ano na UnB

- eu fui pra Paris. Voltando, varri o chão da casa, passei álcool nos móveis, fui estudar psicanálise, e não sobrou ninguém aqui dentro. Só uma sensação boa de liberdade, e a janela do quarto aberta deixa o vento entrar. 40 livros novos. Menos nomes na agenda telefônica, vamos jogar outro jogo, babe, our time is over. Now they know, now I know. Só fica quem me oferece um lugar na casinha; amor é se sentir em casa, acho.