segunda-feira, 1 de outubro de 2007

preguiças

Eu gosto de estudar à noite, quando não existe mais ninguém acordado. Passar a madrugada, até de manhã, escrevendo. Eu ligo o computador, uma luz bem fraca, deixo o Tufik dormir embaixo da escrivaninha, e tomo uma xícara de café com leite quentinha. As manhãs foram feitas pra dormir.
Eu gosto mais de tropicália do que de bossa-nova, e eu prefiro o Caetano ao Chico. Apesar disso, gosto mais dos cachorros do que dos gatos, muito embora tenha vontade de ter os dois em casa.
Eu amo os Beatles; tenho amor, mas sinto mágoa dos Rolling Stones. Eu adoro a Yoko.
Eu queria ter cabelo comprido, mas meu cabelo é curto e não cresce nunca.
Gosto mais de vestido do que de calças jeans. Mais de café do que de chá. Mais de salgado do que de doce. Prefiro vinho, depois cerveja. Não me dou bem com os destilados, de modo geral, muito embora tenha uma queda recente por whisky.
Gosto de amigos em casa, mas depois de um tempo me dá uma preguiça. Eu gosto de viajar pra longe, muito longe, mas depois de um tempo me dá preguiça. Na verdade eu tenho preguiça quando dura mais do que devia.
Eu ando rápido e dificilmente vejo alguma pessoa na rua. Acho bom quando tem muitos carros passando. Acho bom quando a cidade está em obras e é barulhenta (eu nem noto, e é gostoso). Acho bom quando tudo está cheio e as pessoas ficam falando muito, a não ser no supermercado. Eu gosto de cidades grandes e bagunçadas. Eu gosto de ficar perto do mar.
O silêncio é bom quando chega de noite. A melhor hora é quando o dia vai virando noite, e não dá pra saber quando começa um e quando termina o outro. A lua é mais bonita do que o sol. As estrelas são as mais lindas de todas.
Eu gosto de nadar. Eu gosto do barulho da água e da minha respiração. Eu gosto de ouvir a respiração dos outros. Eu gosto de ouvir os outros contando histórias. Eu gosto de saber qual a cor preferida dos meus amigos. Eu gosto da intimidade, mas acho difícil encontrar pessoas para reparti-la. Eu tenho vergonha dos outros ouvirem a minha respiração, porque eu acho que é barulhenta. Eu também tenho vergonha do meu pé, feio e cascudo.
Eu só tenho bolsas grandes. Minhas bolsas são pesadas, com jornal e livros que eu carrego pra cima e pra baixo. Eu gosto de agendas grandes, também, pra escrever tudo que eu tenho que fazer, todos os dias, pra não esquecer de nada, de nenhum compromisso, de nenhum telefone, de nenhum aniversário, de nenhuma impressão que eu tenha que despachar com meu chefe, de nenhuma memória, de nada que possa ter acontecido no dia de hoje, e se eu pudesse eu teria uma agenda que contaria o que vai acontecer daqui até o final do ano, daqui a três meses, só porque eu tenho preguiça desta coisa de escrever tudo na agenda, todo dia, tanto quanto eu tenho preguiça deste acaso demorado. Na verdade eu tenho preguiça quando dura mais do que devia.

sexta-feira, 14 de setembro de 2007

Lou Reed, beibe

Quando eu chego em casa, meio bêbada, meio feliz feliz, meio triste, meio meio meio, mas nunca 100% algo, eu ouço Velvet e deito, a hundred percent, cantarolando "oh! sweet noooottthiiinnggg...", e sempre tenho uns sonhos bons. É bom, e geralmente eu acordo rindo de a vida ser tão besta. Ho ho ho.

domingo, 26 de agosto de 2007

aldo quer ser o dono do tempo

Você coloca um monte de água na mão de conchinha e vê ela escorrendo devagar, dizia este amigo querido, que naquele momento estava tentando fazer a mão dele virar uma espécie de caixa hermética, quase um contâiner para materiais radioativos, do qual nenhuma gota de água, nenhuma memória, nenhum pedaço do que fosse vivido pudesse escapar. Mas não importa o quanto você feche os dedos ou curve a palma da mão, porque nunca, nunca, nunca a água fica ali. Então a gente coloca a mão de novo na bacia pra ver se dá certo, e pluft: mais uma vez. Aí a gente ri de ser tão estúpido.

Meu outro amigo, João, me liga informando várias coisas. Ele diz que a gente se conhece há dez anos, e eu respondo pra ele que isso é tão bom, e é como se eu pudesse ver a gente fotografando com nossas yashicas pequenas. Ele também explica duas certezas: o amor é aqui na nossa frente; o amor é a quilômetros de distância.

"Porque meu analista falou que as paixões são bobagens, e a vida tem que ser mais feita de pragmatismos", me diz este outro menino ateu. Constatando que a vida é pragmática, ele então decide casar. Eu acho estranho, um pouco triste, um pouco engraçado, e entendo, do meu lado de pessoa que não acredita em ateísmos de qualquer ordem, que a gente vive precisamente o que consegue viver, e que isto é a coisa mais bonita do mundo.

Eu chego em casa neste domingo à noite de um fim de semana enorme, que já dura uns três meses, e o Tufik está me esperando, impassível. Eu compro uma passagem pra Curitiba, pra visitar meus pais e ver o mar. Entro na internet pra trabalhar num texto, tomo duas xícaras de café com leite. Penso em amizade e amor, e sobre como os dois às vezes se encontram, em como às vezes se separam, em como um pode destruir o outro, endurecê-lo, matá-lo, ou como podem ser converter na mesma coisa, ficar diferentes, ficar mais um ou mais outro. Ou mesmo se são coisas diferentes. E por que.

Você coloca um monte de água na mão de conchinha e vê ela escorrendo devagar. Mas nunca, nada nada nada, pode jamais apagar essa memória besta, que é a memória de segurar, de verdade, a água - ou o tempo, que é um nome diferente pra mesma coisa, acho.

sábado, 11 de agosto de 2007

vai, pamonha

A quem interessar possa: do Equador a Brasilia, trago uma garrafitcha de vodka de baunilha e a disposicao absoluta de comprar uma mesa de madeira na feirinha da Torre. Fim de semana que vem, em casa, havera festinha para os queridos.
Tragam panelas, tragam bacias. Uma mesa nova e uma garrafa de vodka. Quem se sentir convidado, apareca. Eu e Tufik-Nestor estaremos esperando.

segunda-feira, 6 de agosto de 2007

De Sarajevo e Srebrenica a sexta-feira, de sexta a sabado de noite, de sabado a Lima, de Lima ao Equador - voltam os telefones laranjas, as pessoas andando nas ruas e falando muito alto, meu cachorro branco de bolinhas pretas, minhas plantas e meu tapete de coracao. E entao, apesar do atraso de tres horas do meu voo, eu nao me irrito, definitivamente: compro uma barra de chocolate bem grande, com amendoim, no free shopping; acendo um marlboro; tomo um cafe com leite e um copo de agua com gas no internet cafe; e acho bom este programa absurdo que esta pensando num canal qualquer, embora eu nao entenda nada de espanhol.
Tambem porque da minha casa fui ao aeroporto de Brasilia com a Julia, e tocou Beatles, e life's very short and there´s no time/to flussing and fighting, my friend, e pluft. We can work it out, eles dizem. O Nestor/Tufik esta dormindo com a cara pra fora da janela, a Julia esta falando alguma besteira engracada pra eu parar de pensar que nao vamos chegar a tempo, e depois a gente ri um pouco da musica, e canta, e acha meio bizarro que esta musica toque agora. O Nestor ja foi entregue, a gente vai comer antes de embarcar, e na frente do prato de macarrao comenta mais uma vez a frase do Phillipe Mourin - perdoar e resistir a crueldade do mundo.
Daqui cinco minutos termina meu tempo no internet cafe. Eu acendo mais um cigarro, tomo mais um copo de agua e me preparo pra almocar, enquanto a tv continua com a novela boba, a garconete serve as outras pessoas que estao sentadas, e tudo tudo tudo ja e mais compreensivel e mais terno.

quinta-feira, 26 de julho de 2007

ui ui ui - la vie, elle n'est pas facile

E então, notícias sobre a Bósnia. Onde estão?
Nem eu sei dizer. Elas são muitas e muito poucas. Porque é estranho passar duas semanas fora, mil coisas, Sarajevo tão linda e espiritualizada, Sarajevo com seus buracos de bala e carros antigos, análises múltiplas de quaisquer aspectos sobre genocídio, e depois voltar pra casa, pro trabalho todo dia da repartição, pro telefone laranja, pros amigos que ficaram por aqui, pros amores antigos e atuais, pro meu chuveiro quentinho e pros pacotes que ainda não desfiz desde a mudança.
Então é como se eu não estivesse nem triste, nem feliz, nem qualquer coisa. É como se nada. É como um nada bem grande, enorme, de quinze patas; é como o "sem-face" do desenho da Chihiro, que ninguém nunca soube dizer o que é, se um Deus ou um monstro, porque ele engole tudo com dentões feios e depois estende a mão carinhosamente.
Aí eu corro corro corro, na esteira da academia e na vida; corro corro corro pra tomar banho na hora certa, e ir pro trabalho, e depois corro pra dar ração pro Nestor e levar ele pra fazer xixi. E quando eu não tenho nada pra fazer aqui em casa eu invento uma comida bem complicada pra cozinhar, porque aí eu fico concentrada em saber se o molho vai coalhar ou não, se manjericão combina com alecrim, se vai engordar muito ou se qualquer coisa, tanto que seja ordinária, certa, pequena e sobretudo compreensível.

segunda-feira, 23 de julho de 2007

love's a razor blade

Provavelmente porque cada dia dói tanto, e é tão duramente triste que eu sinto como se minhas unhas estivessem em estilhaços toda noite;
porque sempre é como se o sol se partisse em mil pedaços na sua força de meio-dia à seis da tarde;
porque as horas cotidianas caem devagar, em conta- gotas;
também porque o amor e a ternura são estes fatos tão absolutos e inegáveis (pra mim) da condição humana;
e, finalmente, porque nada, nada é tão leve pra mim como eu, eventualmente, gostaria de imaginar que seria pro meu filho (e porque talvez, por esta simples razão, desde muito pequena, eu tenha absoluto repúdio à idéia de ser mãe);

: eu simplesmente me curvo à idéia de que love's a razor blade.

E durmo.