quarta-feira, 2 de abril de 2008

o incômodo agudo eventualmente produz no eu alguma iniciativa de ação transformadora, portanto pode ser benéfico em determinadas circunstâncias

Esse é definitivamente o meu blog causador de infortúnios.
Algumas vezes cheguei a sentir que ele poderia explodir a minha vida pessoal em cinco minutos.
Muitas pessoas já ficaram irritadas com ele. Algumas se emputeceram realmente, outras ficaram tristes, outras fizeram comentários desaforados em protesto.
Teve bastante gente, eu imagino, que se sentiu overexposed. Deve ser péssimo sentir-se assim.
Eu já defenestrei alguns posts por culpa.
Talvez eu realmente fale mais do que deveria.
Estes dias, por exemplo, li uma chamada no jornal que dizia algo como "os tagarelas são a voz do diabo porque nos retiram das águas profundas da reflexão". Percebi que falavam comigo. Foi um horror.
Provavelmente o melhor lugar pra refletir seja mesmo o divã de análise.
Estou de férias dos dias de ter sono durante o tempo que esta minha específica crise de consciência durar.

domingo, 16 de março de 2008

do amor e suas trilhas sonoras

Com 19 anos, depois de três anos de namoro-água-com-açúcar, eu estava de saco cheio de amor estilo Cardigans love me love me say that you love me, i don't care about anything but you, e estava preparada para uma história de amor trilha sonora dramática. E se fosse Cardigans, que pelo menos pulasse para leave me leave me, say that you need me. Não deu outra, e meu namorado de seis meses, até os 20, foi um daqueles músicos estilo tragédia constante, lindo e fracassado, que se apaixonou me observando pegar o ônibus com meus livros de literatura embaixo do braço às seis e meia da manhã, indo pra faculdade com cara de sono e ramela no olho. Dramático que só, ele cantava pra mim só tinha que ser com você, e cinco minutos depois tinha doze crises de ciúme te-odeio-não-podemos-ficar-juntos-blá-blá-blá-blá-eu te amo. Olhando pra trás, sim: a não ser pelo fato de não gostar nenhum pouco de cocaína, ele era o Lobão encarnado. Eca.

Eu saí acabada. Mas eu queria um pouquinho mais de desgraça e fiquei com um dos melhores amigos dele: dez anos mais velho, dez anos mais legal, nem tão sexy assim, mais inteligente, professor de literautra, sucesso na vida. Eles brigaram, e nós vivemos um ano e meio juntos. Pra mim, eu quero a sorte de um amor tranquilo; pra ele, ilhas mariana do norte, fazendo músicas nas quais eu era um abismo infinito onde ele se perdia sem fim ... Foi a única vez, acho, em que eu me senti verdareiramente a Ruby Tuesday, absoluta necessidade de ser livre, e você aí, pedido de casamento, e eu não posso viver sem você. Quando terminou foi ruim. Me senti culpada, como se tivesse estragado a vida de alguém. Bobagem, bobagem. Depois disso ele foi feliz, acho. Ficou com raiva da minha indiferença, perdemos contato. Estes dias tentei ligar, o telefone mudou. Um dia nos cruzaremos em algum café de Curitiba, eu com os meus filhos, ele com os dele, sei lá, ou tomaremos uma cerveja. Ou mais provavelmente nada: a gente pode até já ter se cruzado na rua e não ter se reconhecido.

E aí houve houve Nova York, 22 anos, o momento de encontrar o amor da vida, mas ele vivia no far, faraway, e eu era brasileira tendo que voltar pra terminar o curso de direito no Brasil. Então dois meses antes de voltar eu escutava a trilha de In the Mood for Love, o filme que a gente costumava assistir juntos pelo menos duas vezes por mês, e chorava. Chorava de madrugada no meu apartamento da esquina da 28 com a 3ª avenida, chorava no avião de volta pro Brasil - 12 horas em pranto interrupto, e a aeromoça, preocupada, trazendo lencinhos -, e chorei mais um ano, compulsivamente, mesmo estando com outro menino que me dava colinhos e colocava musiquinhas do White Stripes pra me acalmar. Chorei de novo quando ele veio pro Brasil me ver por duas semanas, e quando ele partiu de uma vez pro Uruguai e depois pra China e pra Tailândia eu fiquei duas semanas no quarto ouvindo a Cat Power cantar I found a reason - I do believe in all the things you see, and with you what comes is better than what came before, so you'd better come to me, and you'd better run run run run run to me.

Acho que dessa história eu nunca consegui me recuperar direito, e até hoje quando escuto o Covers Record da Cat Power eu sinto um aperto na garganta, saio de perto, digo pra mim mesma que nada disso aconteceu. Depois do Michael, pra esquecer a dor quase física da distância, teve a minha fase de absoluta obsessão pela libertação completa, estilo Peaches, fuck the pain away. Aí, dos 25 pra frente, how does it feel to be on your own, with no direction home, like a rolling stone, eu entrei no momento um pra lá, dois pra cá, me apaixonando por qualquer um, indiferentemente, por inércia, e depois enjoando de todos eles e dizendo pra mim mesma como foi que você ficou com esse cara... Do fotógrafo mais novo ao gótico podrão, do hippie magrinho ao economista promissor, do amigo maluco ao jornalista mais velho, eu tive tantos amores e não tive nenhum. Lo Boob Oscilator, Stereolab, quase uma compulsão por engolir o mundo, todos os sons e no fundo uma vozinha tão doce cantando em francês, quase uma esperança, essa coisa perfeita e horrorosa que é o noise.

Eu achei que não havia mais jeito, e no meio de 2007, sploft. Eu quero casar com você, vamos para qualquer lugar que não seja aqui, parecia a materialização perfeita, no meio do mundo ordinário, de i'll be your mirror, reflect what you are in case you don't know; please put down your hands, 'cause I see you. Tinha tudo pra dar certo e tudo pra dar errado, e lá vamos nós. Um salto no escuro, nenhuma defesa, eu sei que eu posso acreditar, eu sei que você pode acreditar também. E tudo parecia perfeito: os móveis da casa dele, o box do Velvet que ele tinha em cima da estante, a assinatura da Folha e a mania de ler o jornal antes de dormir. Eu fiz planos pra festa de aniversário de trinta anos que iríamos organizar pra ele no ano seguinte, pro nosso doutorado no exterior, pras nossas férias em Buenos Aires. E aí, de um dia pro outro, Flaming Lips no cd player - suddenly everything has changed. Eu nunca entendi direito por que ele foi embora, e ele nunca fez muita questão de me explicar certinho o que aconteceu. Eu sofri sofri sofri, por quê por quê por quê. Com o tempo a dor que parecia eterna-vou-morrer passou. Acho que provavelmente foi covardia dele, essa coisa de transformar a própria vida numa caixinha miserável e permamentente trágica, justificada com mil explicações racional-existencialistas, inclusive a de que love, love will tear us apart again. Sei lá. Eu só sei que Velvet nunca mais foi tão legal, e eu mesma comecei a achar I'll be your mirror uma música enjoativa, e concluí que, mesmo a Nico, quando cai nessa de amor incondicional, fica muito chatinha.

Comecei a fazer análise pra entender qual é o movimento viciado que eu ando repetindo em todas estas histórias. Ainda não descobri, embora minha analista me ofereça suas muitas opiniões perspicazes e inteligentes ao fim de cada sessão. Não ando mais ouvindo muitas músicas de amor. Ném músicas de mulher independente, estilo Portishead. Eu tenho escutado muito Morcheeba, especialmente o Chorango. Também Andrew Bird, Yo La Tengo e o último disco do Arnaldo Antunes. Não sei o que isso quer dizer.

quinta-feira, 6 de março de 2008

falando sobre dissertação

A mim não importa muito saber exatamente quantos morreram em episódios de genocídio como o holocausto, a tomada de Srebrenica ou Ruanda. Eu acho que o mais importante não é conhecer se quem perpetrou os assassinatos foi uma elite burocrática movida por ideologias ou inércia, ou uma população inteira segurando machetes baratos com as mãos. Se os armênios seguiram caminhando caminhando caminhado até desaparecem da face da Terra, ou se os tutsis em situação de refúgio tiveram que ficar escondidos quando nos campos da ONU para que mesmo lá não fossem exterminados. Ou se as vítimas em Darfur são alvos de perseguição política, de disputas por recursos econômicos ou por motivos religiosos.

A mim importa a memória de que aconteceu de verdade, sobretudo. Enquanto há a lembrança ressignificada na atualidade dos tempos, há a consciência de que é possível haver o sofrimento estendido uma vez mais. Eu tenho horror ao esquecimento do genocídio, talvez mais ainda do que ao genocídio em si.

terça-feira, 26 de fevereiro de 2008

Como comprar um tê em Genebra

- Ce que je veux, c'est un adapteur pour connecter mon ordinateur...
-Connecter ton ordinateur à quoi, madame? À l'internet?
- Vou bien savez, monsieur, à l'énergie, à l'electricité, au monde, parce que les choses suisses de connection sont très differentes de celas de les autres pays.
- Je ne vous comprends pas, madame. Vou pouvez répeter?

E assim por diante, três horas em 500 lojas de produtos eletrônicos no shopping. Até descobrir, finalmente, que "tomada" em francês é "prise" - ou quelque chose comme ça - , e que teria sido bom mais fácil se eu fosse um pouco menos arrogantezinha e tivesse trazido um dicionário português-francês para Genebra.

De qualquer forma, aqui tem muito chocolate e vinho barato, e toneladas de queijos brie que custam 3 reais. E todo mundo conhece direitos humanos e fica achando bom minhas chatíssimas discussões sobre genocídio em Ruanda. E amanhã eu vou no Palais de Nations.

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2008

things change, but not quite - II

And those that will judge will say you're
aloof, but you know the truth is a seed.
You know what you need is a
conflagration.
Se você tivesse esperado um ou dois dias a mais antes de me dizer que não; e se naquele final de semana nós dois tivéssemos visto a björk cantando all is full of love juntos no Rio; se tivesse feito mais frio nas noites de dezembro de brasília, e de surpresa você me ligasse numa sexta às 11 pedindo um cachecol cor-de-rosa da bósnia; e se eu tivesse vontade de te ligar hoje, depois do trabalho, e te convidar pra tomar uma xícara de café com leite e ouvir o fakebook, do yo la tengo; e se no dia 1º de janeiro eu tivesse sentido, como sentia antes, que acordar do seu lado era melhor do que dormir até mais tarde; e se em vez de ficar falando alto você tivesse me chamado baixinho, quando não tinha ninguém, e me perguntado o que é que eu tinha, será que eu teria conseguido chorar no seu ombro pela primeira vez?


Hoje eu fiquei chateada no trabalho e pedi licença pra escrever a dissertação. À tarde caminhei pela UnB com a Jujú, e quando cheguei em casa coloquei i can hear the heart beating as one pra ouvir. Pensei que pra sempre vou sentir alguma coisa estranha quando tiver que pegar a caixinha pra ouvir o disco - foi você quem trouxe, mas estranhamente ele não me faz lembrar qualquer gesto seu, ou de nós dois, no passado ou no futuro que eu vivo imaginando. Ele só apareceu um dia em cima da minha mesa de trabalho, como algo que você esqueceu por aí, sem as bobagens habituais que talvez você nem saiba que são tão importantes pra mim - 'eu sei que você ama esse disco', uma dedicatória, papel de presente, fitinha vermelha de cetim que a gente tem que desatar com cuidado mas morrendo de vontade, sem conseguir piscar e perguntando o que tem lá dentro do embrulho. É, ele não veio pra ser um presente. Então, enquanto penso nisso, penso também que as coisas são perfeitamente assim mesmo, sem qualquer "se", a não ser aqueles que eu insisto ainda em criar dentro de mim. E que mesmo que você me chamasse baixinho e com cuidado hoje antes do almoço eu não iria querer que você me visse chorando. E que, mesmo querendo tanto, eu não consegui acreditar que 2008 poderia ser diferente com você quando acordei do seu lado no primeiro dia do ano.


Agora você está tão perto, mas em outro país. Eu não tenho fotos suas. Nem nossas - engraçado, nós nos prometemos tantas vezes ser donos do tempo. Agora, quando te olho com cuidado, disfarçando pra ninguém notar, não consigo mais reconhecer o seu rosto direito: eu, que me redesenhava em cada parte de você quando a gente estava longe. Agora o seu cheiro, eu percebi sem querer que parei de sentir desde que você voltou, e mesmo nos corredores as pessoas que usam o mesmo perfume que o seu não passam mais. Virou cheiro de lugar nenhum, de ausência; um desses cheiros que de tão antigos ficam esquecidos na memória, e que sem querer anos depois a gente lembra quando está assim distraída, esperando na fila do cinema ou correndo pra comprar um café numa cidade desconhecida. Um desses cheiros que não falam mais do show da björk que eu assisti sem você, emocionada no meio da multidão, com o coração apertado; nem do café com leite que a gente nunca tomou, naquela sexta em que você podia ter ligado, mas em que você previsivelmente não apareceu. Nem do frio que a gente podia ter consertado juntos, porque já está chegando perto da primavera. Vai parando a chuva, e enquanto não vêm o calor eu corro rapidinho e pego um cachecol velho pra me esquentar, esperando sem querer, mas nem tanto, pra saber se não é nessa noite em que a conflagration de que fala o andrew bird bate aqui na minha janela aberta e senta no sofá, no pé da minha cama, embaixo da mesa, do meu lado, bem perto.

domingo, 27 de janeiro de 2008

things change, but not quite

Se eu tivesse esperado um ou dois dias a mais antes de te dizer que não; e se naquele final de semana nós dois tivéssemos visto a björk cantando all is full of love juntos no Rio; se tivesse feito mais frio nas noites de dezembro em brasília, e de surpresa você me ligasse numa sexta às 11 e meia pedindo um cachecol cor-de-rosa da bósnia; e se eu pudesse te ligar hoje, no meio da chuva, e te convidar pra tomar uma xícara de chá de hortelã com mel e ouvir cat power; e se no dia 1º de janeiro de 2008 eu tivesse sentido, como sentia antes, que acordar do seu lado era melhor do que dormir até mais tarde; e se você encostasse na minha mão agora, será que eu iria esperar, devagarinho, pra segurar na sua?

Hoje eu assisti down by law e lembrei de você, especialmente no começo, quando tocava aquela música do tom waits. Depois fiz café com leite bem quente, e deitei na sala com o tufik. Chove bastante agora, e eu fico pensando sobre o show do yo la tengo em maio, e imaginando como seria lindo se eles tocassem take care. Eu escovo os dentes, faço um chá de camomila e me preparo pra dormir; fecho as janelas e as cortinas da sala; arrumo o edredon e separo a paixão segundo gh pra ler na cama.

Você está tão longe, em outro país. Eu não tenho fotos suas. Nem nossas - estranho, nós nos prometemos tantas vezes ser donos do tempo. Então não consigo lembrar do seu rosto direito; eu, que redesenhava cada parte de você quando a gente estava longe. O seu cheiro, eu às vezes sinto nos corredores, quando passa alguém que usa o mesmo perfume que o seu. Virou o cheiro de lugar nenhum, dos corredores anônimos em edifícios públicos, de ausência. Da falta de chuva em dezembro do ano passado, do show da björk que eu assisti emocionada no meio da multidão, com o coração apertado. Do chá de camomila que hoje eu prefiro ao de hortelã, da coberta listrada azul, rosa e lilás que eu uso pra me esquentar de noite, quando está frio lá fora e sem querer eu esqueço a janela aberta.

sábado, 12 de janeiro de 2008

For last year's words belong to last year's language
And next year's words await another voice.
And to make an end is to make a beginning.
T.S. Eliot, "Little Gidding"